segunda-feira, 12 de novembro de 2007

A agressividade de Juan Carlos…



Houve um tempo, no “ancien régime”, no qual o rei tinha o direito de fazer o que entendia no interior das suas fronteiras – foi a Soberania pós-Vestefaliana levada ao Extremo da existência. Após 1789 com mais umas e menos umas cabeças cortadas com patrocínio do Dr. Joseph-Ignace Guillotin moderou-se o poder do monarca e a soberania passou a residir na Nação, deixando de ser uma prerrogativa do divino.

Este fim-de-semana, numa Cimeira num continente que, em tempos idos, conheceu um fabuloso domínio espanhol, o Rei de Espanha – povo que naquele hemisfério sempre foi um exemplo de ponderação e equilíbrio no seu relacionamento com os indígenas, dizimando a seu bel-prazer – foi capaz de mandar calar um Chefe-de-Estado.

Não sou fã de Hugo Chávez, nunca poderia ser, mas o grau de agressividade com que o Rei de Espanha se dirigiu ao senhor foi degradante. Nunca imaginei ver o presidente da Venezuela dar uma lição de educação ao monarca vizinho mas… aconteceu! É simplesmente inadmissível que um chefe-de-Estado se comporte assim.

Desde 1981 habituámo-nos a ver no rei espanhol um exemplo de ponderação e educação, superior a forma como “salvou” a democracia espanhola em 1981. No entanto, os últimos tempos não têm sido fáceis: trabalha com o governo mais liberal (em matéria de costumes e organização do Estado) que ate hoje já conheceu; grassa em diversas províncias espanholas uma oposição à monarquia até hoje desconhecidas; a família real espanhola – em tempos um exemplo de discrição – abre buracos por todos os lados; e, recentemente, o reino do Marrocos decidiu capitalizar a fraqueza do país.

De uma coisa estou certo: não será com o aumentar da agressividade do discurso político que o rei manterá autoridade. Até acredito que a prazo os súbditos fiquem orgulhosos da forma vibrante como o “viejo” defende os seus, mas a prazo tem custos para a sua imagem e terá responsabilidades na degradação da forma de diálogo politico interno – vide a espiral que tem vindo a marcar a presença do PM português no parlamento: começou crispado e arrogante, está já na fase do pedante sem educação (Primeiro corta a direito, depois tem tiques autoritários – este será sempre o resultado deste índice de agressividade no diálogo).

Curiosamente, esta crise interna dá-se precisamente no momento de máxima expansão da economia espanhola – crê-se, onde o país deverá mesmo conhecer um superavit orçamental. A minha questão fundamental é saber como vão reagir às dificuldades? A Espanha moderna resistiu unida com a mão-de-ferro de Franco e a luta pela Democracia. Com o grau de conforto que a população hoje conhece e podendo, a médio prazo, ver recuar esse conforto, quem irão os espanhóis culpar? Será que Castela conseguirá manter o cimento da união dos diversos reinos peninsulares? Ou será que Portugal terá mais companhia neste maciço?

Boa parte de nós estamos habituados a ouvir, desde há muitos anos, a conversa da plurinacionalidade de Espanha, sem ver surgir novos dados sobre a inconsistência do Estado; lembro porém que, quando se dão acelerações históricas, os acontecimentos ultrapassam os homens. Se fosse espanhol via os sinais como preocupantes…

FG

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